Queres saber o que acontece ao corpo quando calças sapatos barefoot? O fisioterapeuta Michael Tichov, da FyzioGO, analisou o que a ciência diz sobre correr com calçado barefoot.
Estás a pensar fazer a transição para sapatos barefoot, mas não sabes bem o que pensar? Não estás sozinho — corredores entusiasmados de um lado, ortopedistas céticos do outro e uma carrada de meias-verdades nas redes sociais. Uns dizem que correr «descalço» é um regresso ao natural. Outros avisam que é o caminho mais rápido para uma lesão.
O fisioterapeuta Michael Tichov, da FyzioGO, diz isto de forma clara: nos últimos quinze anos, a ciência avançou imenso neste tema e dá-nos respostas bastante objetivas à maioria das perguntas. Investigadores observaram como muda o padrão de passada, como são carregadas as articulações, como trabalham os músculos do pé, quais os riscos de lesão e como muda a eficiência da corrida. E a conclusão? O barefoot não é, de todo, um calçado milagroso que resolve tudo por ti — mas, ao mesmo tempo, é difícil ignorar que os resultados são consistentes e que os corredores que fazem a transição com técnica e de forma gradual beneficiam realmente. Vamos então ver o que sabemos de facto.
Correr com calçado barefoot não é só uma questão de sapatos. É, acima de tudo, uma forma diferente de carregar os pés — e, por consequência, o corpo inteiro. Quando pegas num corredor que passou anos a correr com sapatilhas amortecidas e lhe dás uma sola fina, a técnica quase sempre muda. E a ciência descreve exatamente como.
Nas sapatilhas de corrida clássicas, cerca de 75–90 % dos corredores aterram com o calcanhar. É natural — o amortecimento forte no calcanhar permite isso e, na prática, até o incentiva. Mas assim que o amortecimento diminui de forma significativa, aterrar com o calcanhar torna-se imediatamente desconfortável e o corpo, por si só, pede uma mudança ao fim de poucos passos.
Quem corre em barefoot tende naturalmente a passar para uma aterragem no médio pé ou na parte da frente do pé. E isso tem um impacto enorme no que acontece ao teu corpo a cada passada. A mudança do tipo de aterragem não elimina as forças do impacto, mas altera bastante a forma como elas se distribuem:
Esta redução da velocidade do impacto é um dos fatores mais importantes na prevenção de dores associadas à corrida — sobretudo dores na canela e no joelho, onde, na corrida barefoot, atuam forças mais baixas.
O calçado barefoot não guia o pé, não o apoia nem o «ajuda» de outras formas. Este é, talvez, o seu maior benefício — o pé tem mesmo de trabalhar sozinho. As medições de atividade muscular confirmam-no e mostram:
É por isto que alguns fisioterapeutas veem o barefoot como uma ferramenta de treino. O pé tem de trabalhar. E voltamos ao velho ditado — «os barefoot são um ginásio para os teus pés».
A última mudança pode não ser tão óbvia — mas tem um impacto decisivo em todo o movimento. A transição para barefoot tende naturalmente a encurtar a passada e a aumentar o número de passos por minuto. Isto traz:
As mudanças na mecânica da corrida que o calçado barefoot provoca são reais e estão bem descritas. Mas o que acontece a seguir — dentro do teu corpo? Uma aterragem diferente e um ritmo de passada diferente têm impacto direto no que se passa nos músculos, tendões e ossos em cada treino. E é precisamente aí que se decide se a corrida barefoot te ajuda ou, pelo contrário, te prejudica.
Quando começas a correr com calçado barefoot, não muda apenas a forma como aterras. A maior transformação acontece mais fundo — na própria estrutura do pé, do arco e do complexo da perna (gémeos). A ciência já sabe relativamente bem o que se passa por lá.
Um dos benefícios mais referidos da corrida barefoot é o alívio na zona do joelho. Não é por acaso — ao mudar a aterragem, a maior parte da carga é redirecionada para o pé e para os gémeos, o que alivia naturalmente o joelho e a articulação da anca. É por isso que muitos corredores que passaram anos a lutar com dores no joelho sentem um alívio significativo depois de mudarem para sapatos barefoot.
O interessante é que, apesar de no barefoot passarem forças maiores pelo tornozelo do que num sapato clássico, todo o membro inferior fica, paradoxalmente, mais estável. O tornozelo desvia-se menos para os lados, move-se num eixo mais firme e a carga transfere-se de forma mais eficiente para a musculatura da perna. O resultado é uma melhor estabilidade global do membro inferior.
O calçado barefoot não apoia o arco — por isso, todos os músculos do pé têm de fazer o seu trabalho a 100 %. A investigação mostra:
Um estudo de 2014 mostrou até uma alteração mensurável na altura do arco após apenas seis semanas de treino com sapatos barefoot — precisamente porque os músculos que sustentam o arco ficaram mais fortes.
A aterragem no médio pé ou na parte da frente do pé transfere significativamente mais carga para os gémeos e para o tendão de Aquiles.
Isto tem pontos positivos e riscos:
É comum aparecer dor nos gémeos — é normal, mas não convém exagerar. É como a típica dor muscular depois de um treino no ginásio. O corpo precisa de tempo para se habituar.
O arco do pé funciona como uma mola natural. Em calçado barefoot, tem de trabalhar mais, porque o amortecimento não é assumido por uma sola grossa e muito almofadada.
Os resultados dos estudos mostram:
Mas atenção a uma coisa — os ligamentos e os tecidos adaptam-se mais lentamente do que os músculos. Um estudo de 2017 confirma que os sapatos barefoot têm um efeito positivo no arco — mas apenas em pessoas que fazem a transição de forma gradual e lenta.
A sobrecarga dos pequenos ossos na parte da frente do pé é o risco mais conhecido quando a transição para barefoot é demasiado rápida. Um estudo de 2013 descreveu que, em corredores que mudaram depressa demais, surgiram nos ossos os primeiros sinais de reações de stress — sem que chegasse a haver uma lesão real. O problema não eram os sapatos barefoot em si, mas a velocidade da transição.
Os ossos adaptam-se mais lentamente do que os músculos, e é por isso que a progressão é tão importante. A boa notícia é que a paciência compensa — os ossos que se habituam gradualmente à nova carga aumentam a sua densidade com o tempo e tornam-se significativamente mais resistentes do que antes.
As sapatilhas muito amortecidas «suavizam» muita coisa — impactos, instabilidade, irregularidades do terreno. Mas, ao mesmo tempo, tiram ao pé algo importante: informação sobre a superfície onde estás a correr. O calçado barefoot muda isto.
Isto leva a:
Este efeito é muitas vezes subestimado nas discussões sobre calçado barefoot — e, no entanto, é um dos maiores benefícios, não só na corrida, mas também na caminhada do dia a dia.
Todas as mudanças descritas acima têm algo em comum: precisam de tempo. Aqui ficam algumas dicas para fazeres a transição sem dores desnecessárias.
Começa devagar. Não comeces por calçar sapatos barefoot no teu treino habitual. Nas primeiras semanas, usa o barefoot apenas como complemento — uma caminhada ou um trote leve no parque. O corpo precisa de semanas, não de dias, para se habituar.
Escolhe os sapatos certos. Os parâmetros-chave são drop zero, uma biqueira suficientemente larga e uma sola fina, mas funcional. Acima de tudo, os sapatos têm de assentar na perfeição. Para iniciantes, pode compensar escolher modelos com uma sola ligeiramente mais espessa ou com palmilha removível — assim a transição será mais gradual.
Ouve o teu corpo. Um ligeiro cansaço nos gémeos ou nos pés é normal. Uma dor aguda ou prolongada no tendão de Aquiles, na parte da frente do pé ou noutra zona do corpo é um sinal para abrandar. A diferença entre uma adaptação saudável e uma sobrecarga está, na maioria das vezes, na rapidez com que aumentaste o volume.
Cuida dos pés. Um excelente aliado é a bola de massagem— rolar regularmente a planta do pé sobre a bola ajuda a libertar tensão nos músculos e nos tecidos. Bastam alguns minutos por dia, por exemplo de manhã ao acordar ou à noite antes de dormir.
Resumindo — a transição para barefoot é um pouco como aprender a correr de novo. Não porque te tenhas esquecido de como se faz, mas porque o corpo precisa de reescrever padrões de movimento que construiu ao longo de anos. Uma aterragem diferente, uma carga diferente nas articulações, músculos a trabalhar de outra forma, um ritmo de passada diferente. Tudo isto, em conjunto, cria um estilo de movimento totalmente novo. E, como qualquer nova competência, precisa de tempo, repetição e progressão. Quem respeita isto tem uma grande probabilidade de obter os benefícios desejados da corrida barefoot: músculos do pé e do arco mais fortes, menor carga nos joelhos, melhor estabilidade do tornozelo e um movimento globalmente mais natural.
Autor do artigo: Mgr. Michael Tichov
Desportista ativo e fisioterapeuta, que segue o lema «mente sã em corpo são». O seu foco são os exercícios físicos, seja no treino desportivo, seja em exercícios terapêuticos com o objetivo de ajudar a pessoa a livrar-se de dores crónicas. Encontras mais dicas de fisioterapia no Instagram da FyzioGo.
O artigo baseia-se nas conclusões dos seguintes estudos: Lieberman et al. (2010) — cinemática da aterragem e redução de impactos; Daoud (2012) — incidência de lesões em diferentes tipos de aterragem; Bonacci et al. (2013) — alterações dos padrões de movimento durante a transição; Ridge et al. (2013) — risco de sobrecarga óssea; Miller et al. (2014) — alterações na altura do arco; Roper et al. (2016) — carga metabólica dos gémeos; Hollander et al. (2017) — efeito a longo prazo do calçado minimalista no arco do pé.

Encontra-se em www.premiumbarefoot.pt